quinta-feira, 24 de março de 2011
Como nasceu o Grêmio Espanhol de Socorros Mútuos e Instrução de Belo Horizonte
Um capítulo importante da história do Brasil refere-se à emigração européia na segunda metade do século XIX. São tempos do fim da escravidão e da grande produção de café. Suíços, alemães, italianos e espanhóis formam a força de trabalho, bem nas fazendas cafeeiras paulistas, bem nos diversos empregos nas grandes cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.
Todos conhecem os problemas que a emigração européia causa, tanto no Brasil como nas nações da Europa. O tratamento recebido pelos colonos alemães e, em geral, por todos os emigrantes europeus, obrigou os Governos, primeiro o da Prússia, que no ano de 1859 proibira a emigração para o Brasil e, depois, outros países seguiram o exemplo.
No ano 1865, uma “Real Orden” tomava medidas referentes à emigração dos espanhóis para o Brasil. Nela se faz referência “aos tratados que recebem no Brasil os espanhóis”. De agosto de
Isto não obstante, entre 1885 e 1911, o porto de Santos recebia perto de 200.000 espanhóis. A situação desta população de emigrantes não era muito satisfatória. A miséria rondava muitas das “casas” dos emigrantes. Os salários não foram os salários prometidos na contratação. Os espanhóis, todavia, encontraram uma maneira de solucionar o estado, quase miserável, em que grande parte de outros emigrantes, se encontrava. Fora do trabalho nas fazendas cafeeiras de São Paulo, os espanhóis procuraram campos de trabalho nos bares e restaurantes, na construção, onde alguns encontravam a maneira de se livrarem dos contratistas.
Talvez, a colônia de emigrantes espanhóis melhor situada fosse a comunidade de Salvador, na Bahia. A maioria dos espanhóis estava dedicada ao comércio. E, o mais importante, em Salvador, os espanhóis fundaram uma Sociedade que procurava ajudar aos conterrâneos nas doenças ou nos casos de pobreza. E o que era mais interessante, os próprios patrões procuraram seus trabalhadores que estivessem associados à entidade.
Minas Gerais é uma das regiões que contam com menos emigrantes espanhóis. Os documentos da administração espanhola que nos falam de emigrantes no Brasil, mencionam regiões como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Recife e até Rio Grande do Sul, mas nada falam em relação ao Estado de Minas. Todavia, sabemos que, durante o período colonial, por estas terras andaram espanhóis. As lembranças religiosas esparsas pelo Estado nos manifestam sua presença. Cidades como Vila Rica, Mariana, São João del Rei, Nova Lima e Pitangui, entre outras, tem como Padroeira de suas igrejas a Virgem do Pilar. A Sé de Mariana tem uma presença muito mais marcante. Sua Padroeira é Nossa Senhora da Assunção, como o é, também, de quase todas as catedrais espanholas.
No fim do século passado, a construção da nova capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, proporcionou a oportunidade para que aqui chegasse um grupo de emigrantes da Espanha. Os trabalhos da construção exigiram conhecedores do trabalho da pedra e da madeira. Pedreiros e marceneiros eram os operários mais valorizados. De São Paulo e, principalmente, da Bahia foram chegando emigrantes espanhóis à Nova Capital. Na Bahia, a colônia espanhola é fundamentalmente galega e os galegos são mestres no tratamento da pedra e mestres na marcenaria. As grandes pedreiras dos arredores da futura capital ainda lembram a passagem dos grandes canteiros galegos. As pedras de lá extraídas foram ornamentar casas, igrejas e palácios de Belo Horizonte. Algumas dessas pedreiras, hoje transformadas em grandes favelas, têm nomes bem espanhóis, como a “Pedreira Prado Lopes”, outras já perderam os nomes, como a dos irmãos Muradas.
À Bahia muitos chegaram a chamado de seus familiares que viviam na capital baiana. Buscando aventuras, buscando sucesso na vida, aportaram alguns deles a Belo Horizonte e, assim como se criou a Sociedade Espanhola em Salvador, assim foi criado em Belo Horizonte o Grêmio Espanhol. Foi um sonho acalentado pelo espírito de espanhóis emigrantes aqui chegados dos mais pontos da península. Foram homens que, partindo dos quatro cantos da Espanha, aqui aportaram com um espírito de aventura e ideal de crescimento.
É bem verdade que a maior parte dos que aqui chegaram eram das mansas terras da Galícia. Talvez por isso, porque eram galegos, a “morriña” apertara mais forte. Talvez por isso a idéia fosse crescendo, aos poucos, mas com força, até se transformar numa bela realidade.
Os espanhóis chegaram, vindos de aldeias, paróquias e cidades. Poucos com grande cabedal de letras ou títulos escolares. Chegaram, sim, com as mãos calejadas, acostumados ao trabalho duro da “terrinha” e, por esse motivo, dispostos a triunfar custasse o que custasse. Trabalhar foi sua norma de vida e a dignidade, sua lei. Todos eles poderiam recordar nas suas cartas à família, à namorada que lá ficara.
Nossos patrícios que aqui chegaram por aqueles anos de 1900. Eis a característica daqueles homens, que lançaram os alicerces do Grêmio Espanhol. Em fevereiro de 1911, assinaram alguns espanhóis um livro contribuindo para alugar cadeiras, pagar aluguel de uma sala para se reunirem. Era um imperativo a fundação de uma sociedade que agrupasse os espanhóis aqui residentes. Assim surgiria o Grêmio Espanhol de Socorros Mútuos e Instrução.
O que importava naqueles momentos, pelo que se refere à criação da nossa entidade, era reunir o grupo de espanhóis residentes em Belo Horizonte para, juntos, reviverem sentados a uma mesa, jogando dominó, à “brisca”, ao “tute”, algo do que ficara na Espanha. Estava longe e poderia estar perto: todos reunidos, formaram uma comunidade, onde se poderia sentir o palpitar da terra nativa, do vale, do córrego, da música angustiada de uma “gaita” ou a virilidade de uma jota aragonesa ou castelhana.
E como era bom voltar a ouvir a língua materna, misturando galego e português, ou castelhano e português, nesse saboroso “portunhol”! E como era saudável matar a “morriña” da terra longínqua no comentário das cartas que após longas, demorada viagem, chegavam da aldeia, da paróquia da cidade grande!...
Sentados em redor de uma mesa, aqueles homens, muitos de aldeias vizinhas, e até, muitas vezes, da mesma aldeia, passavam horas e horas comentando as notícias que de lá chegavam, relembrando a casa, os amigos, a família, o correr do riacho onde abundavam as “truchas” ou os salmões... Tudo aquilo que ficara na Espanha e a cada dia voltava à lembrança saudosa dos que algum dia esperavam retornar e ver novamente.
Nas conversas, surgidas ao calor das recordações, aflorou a idéia da fundação do Grêmio, que deveria ser uma casa, uma prolongação da casa da aldeia, onde todos, como se estivessem sentados numa noite infindável do inverno, ao lado da lareira, pudessem ajudar-se mutuamente no trabalho e na luta, na alegria e na doença. Onde até pudesse ser transmitido aos brasileiros o sentido e a beleza da cultura da pátria, onde seus futuros ou atuais filhos, pudessem sentir algo do calor, do amor, da grandeza da pátria onde nasceram.
E foi, exatamente, o infortúnio de um patrício que aumentara a vontade de criar a sociedade. Nunca voltaria a acontecer a nenhum espanhol ter de depender da caridade pública. Diante da morte de um patrício, na mais completa solidão e abandono, aqueles homens juraram não descansar até ver em pé seu sonho. Um sonho que, transformado em realidade, teria fundamental importância para poder socorrer os espanhóis necessitados a repartir cultura e instrução aos seus associados e familiares. Por isso se chamaria Grêmio Espanhol de Socorros Mútuos e Instrução.
E aqueles homens, que tanto lembraram seu passado, nos deixaram, não só um edifício material, construído pedra a pedra, tijolo a tijolo, nas horas que poderiam dedicar ao seu merecido descanso e lazer. Nos transmitiram o orgulho, que hoje podemos sentir ao penetrar nos velhos prédios da Avenida Olegário Maciel: o orgulho de sermos espanhóis.
E não é só ao penetrar na Sede Social da Olegário Maciel ou na Sede Campestre da Xangrilá. Ao caminhar pelas ruas de Belo Horizonte, mesmo hoje, desfiguradas de sua realidade primitiva, encontramos os sinais da passagem do homem da Espanha aflorar na mente.
Como causava verdadeiro arrepio na carne e o ferver do sangue, ao ouvir falar, com aquele entusiasmo, com aquele espanholismo, aquela velha senhora que se chamara Dona Olímpia, perante a qual se renderam os homens de maior prestígio social e político de Belo Horizonte, ao transpor a porta do famoso “Montanhês”. Viam-se brilhar aqueles olhos penetrantes, olhos daquela mulher, já esgotada pela luta e pela idade, ao falar de Espanha, de sua terra natal... e se esquecia, naqueles momentos, da quase pobreza em que passara seus últimos dias.
Assim eram também aqueles homens que sonharam dignificar a pátria em que nasceram trabalhando na pátria que os adotara. É que a alma espanhola sempre soube ser grata, melhor, agradecida; soube devolver com largueza o pouco ou muito que recebera.
Ao lembrar este passado e viver o presente, cabe sempre uma lembrança. Nada de desmerecer ninguém, mas podemos repetir que “Ser espanhol é uma das poucas coisas sérias que se podem ser neste mundo”.
E é verdade. Por isso temos de sempre manifestar, bem alto e bem claro, nossa qualidade de espanhóis.
Aqui no Grêmio, pairando pelo ar, escrito nas paredes com caracteres indeléveis, está o exemplo que sempre deveríamos seguir. Foram os nossos antepassados, de ontem e de sempre; aqueles que ficaram apenas na lembrança e outros cujo calor ainda sentimos.
Este é o espírito da fundação do Grêmio. Este é o espírito que, como mensagem, desejamos se transmita a todos
aqueles que leiam estas palavras e contemplem as fotografias que acompanham esta história.
Fonte:
Sugestões:Link para exposição fotográfica sobre a imigração espanhola no Brasil
http://oglobo.globo.com/cultura/rioshow/fotogaleria/2009/8540/
Sugestão para pesquisa :
www.miniweb.com.br/cidadania/.../imigrantes4.html
descendentes.blogspot.com/.../imigracao-espanhola-no-brasil.html
www.historiadobrasil.net/imigracao
http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=MSC0000000012002000200006&script=sci_arttext
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